Bom dia, e bom sábado. O briefing de hoje tem três itens, e eles conversam entre si de um jeito bem direto. O primeiro é um retrato de dentro das médias e grandes empresas, feito com quem decide orçamento de sistema, e o número que sai dele é pequeno de doer: apenas 1% diz ter a área de tecnologia pronta. O segundo mostra a máquina pública andando na direção oposta, com o programa que a maior parte das empresas do país usa todo mês entrando em homologação já adaptado a IBS e CBS. E o terceiro organiza o calendário do documento fiscal em quatro fases, com data para cada tipo de nota. Sábado é bom dia para olhar calendário com calma, então é por aí que eu fecho. Vamos a eles.
⚠️ Despreparo: 1% com a tecnologia pronta
1. Pesquisa da Roit com 70 diretores e gestores de médias e grandes empresas aponta que apenas 1% considera a área de tecnologia pronta para a Reforma Tributária, que 37% ainda não revisaram contratos e que 34% não sabem como os preços de seus produtos e serviços serão afetados em 2027
- A pesquisa foi realizada pela Roit entre maio e junho de 2026, com 70 diretores e gestores das áreas financeira, fiscal e de tecnologia de médias e grandes empresas, que somam mais de R$ 2 trilhões em receitas anuais.
- Apenas 1% das médias e grandes empresas afirma ter a área de TI pronta para as mudanças, enquanto 40% ainda estão planejando as adequações de tecnologia e 31% afirmaram já ter iniciado as adequações.
- No autodiagnóstico de preparo, 14% se consideram não preparados e 13% sequer haviam iniciado a discussão interna sobre o tema.
- Sobre simulações de impacto financeiro, 24% ainda não fizeram nenhuma, 49% realizaram apenas simulações preliminares, 19% fizeram análises utilizando dados estruturados e 9% chegaram a realizar análises detalhadas.
- Na frente de preço e margem, 34% não sabem como os preços de seus produtos e serviços poderão ser afetados em 2027 e 27% não sabem se a margem de lucro deverá aumentar, diminuir ou permanecer neutra.
- Do lado contratual, 37% das empresas ainda não revisaram seus contratos.
Na minha leitura, o número mais acionável não é o 1%, é o par formado pelos 34% que não sabem o efeito sobre o próprio preço e pelos 27% que não sabem para onde vai a margem. Repare no que isso significa na prática: são empresas que vão negociar contrato, reajuste e tabela de preço para 2027 sem saber qual é o piso delas. Quem senta na mesa sem esse número aceita a proposta do outro lado, porque não tem como sustentar a própria.
Para quem atende esse porte de cliente, tem um serviço inteiro nascendo dentro desses 37% que ainda não revisaram contratos. Contrato de prazo longo, com preço fixado sob a lógica de PIS, Cofins, ICMS e ISS, vai atravessar 2027 com outra composição de carga e outro regime de crédito para o comprador. Alguém vai ter que reabrir esses contratos, e é muito melhor que seja você, com planilha, do que o cliente, em cima do prazo, com o jurídico do outro lado já preparado.
Uma sugestão bem concreta para a semana que vem: escolha um cliente, pegue os cinco maiores contratos em valor, e monte uma folha só com três colunas, que são o que ele recebe hoje, o que ele receberia com a nova composição em 2027, e quem fica com o crédito na ponta. Não precisa estar perfeito. Precisa existir, porque hoje, pelo que essa pesquisa mostra, na maioria das empresas essa folha simplesmente não existe.
💻 Simples Nacional: o PGDAS-D novo já está sendo testado
2. O novo PGDAS-D, com declaração pré-preenchida e assistida eletronicamente, entrou em fase de homologação nos dias 20 e 21 de agosto de 2026, adaptado às regras da Reforma Tributária para a apuração unificada de IBS e CBS a partir de 1º de janeiro de 2027
- A publicação registra que a fase de homologação do novo sistema ocorreu nos dias 20 e 21 de agosto de 2026.
- Uma das principais mudanças em desenvolvimento é a adoção de uma declaração pré-preenchida e assistida eletronicamente.
- O programa está sendo adaptado às regras da Reforma Tributária sobre o Consumo para a apuração unificada do Imposto sobre Bens e Serviços e da Contribuição sobre Bens e Serviços.
- A base normativa é a Resolução CGSN nº 190, de 4 de agosto de 2026, que determina as alterações necessárias para que o programa esteja preparado para a apuração do IBS e da CBS, com efeitos a partir de 1º de janeiro de 2027.
- Participam dos trabalhos a Receita Federal do Brasil, secretarias municipais de finanças, o Serpro e a Confederação Nacional de Municípios.
Pense no que aconteceu com a declaração do Imposto de Renda quando ela passou a vir pré-preenchida. O trabalho não desapareceu, ele mudou de lugar. Deixou de ser digitar e passou a ser conferir o que o Fisco já sabe, e discordar quando o dado está errado. É exatamente essa a mudança que está sendo montada no PGDAS-D. A partir do momento em que o programa chega com a apuração de IBS e CBS já sugerida, com base no que veio dos documentos fiscais, quem apura para de construir o número e passa a auditar o número que a administração tributária construiu.
E aí a corrente inteira aparece: o que alimenta essa apuração sugerida é o documento fiscal que o cliente emitiu e o que ele recebeu dos fornecedores. Se os campos de IBS e CBS vierem errados na origem, o pré-preenchimento vai chegar errado, e o erro vai estar dentro de uma tela que passa uma sensação confortável de que já foi conferido por alguém. Não foi.
Duas providências que cabem agora, e a segunda é a mais importante. A primeira é acompanhar a Resolução CGSN nº 190 de 2026 e as próximas comunicações sobre o programa, porque é ali que a mecânica vai ser detalhada. A segunda é revisar a parametrização dos clientes do Simples que já emitem documento fiscal eletrônico com os campos novos, ainda em 2026, enquanto o dado é informativo. Cada erro que você corrigir agora é um erro a menos chegando pré-preenchido na apuração de 2027.
E uma nota sobre prazo regulatório, porque ela vale para tudo que está sendo construído nesta fase: quando um programa entra em homologação, existe uma janela real de influência sobre o desenho dele. Se na sua rotina você identificar um comportamento do sistema que não bate com a realidade operacional dos seus clientes, escreva isso de forma objetiva e leve ao seu conselho de classe, seja o CRC, seja a OAB, seja a entidade que representa a sua categoria. É esse caminho institucional que consolida as manifestações e as encaminha à administração tributária. Contribuição individual dispersa costuma se perder, contribuição consolidada por entidade chega.
🗺️ Documento fiscal: o calendário completo em quatro fases
3. A Secretaria de Finanças de Rondônia publicou o cronograma completo de implementação dos documentos fiscais eletrônicos da Reforma Tributária em quatro fases, com base no Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 4, publicado em 30 de julho de 2026, e a fase 2 começa em 1º de outubro de 2026
- A fase 1, iniciada em 3 de agosto de 2026, alcança a NF-e modelo 55, a NFC-e modelo 65, o CT-e modelo 57, o CT-e OS modelo 67, o MDF-e modelo 58, o GTV-e modelo 64, a NF3e modelo 66, o BPe modelo 63, o DC-e modelo 99 e a NFS-e de Exploração de Via.
- A fase 2, marcada para 1º de outubro de 2026, alcança a NFS-e de serviços gerais, a NFCom modelo 62 e a DIR.
- A fase 3, marcada para 1º de dezembro de 2026, alcança a NFS-e de plataformas digitais, tecnologia, transporte urbano, bens imateriais, taxas condominiais e locações, além da NFGas modelo 76, da NFAg modelo 75 e da NF-e ABI modelo 77.
- A fase 4, marcada para 1º de janeiro de 2027, alcança os fornecimentos monofásicos, a Duimp, os demais eventos do DeRE e o Simples Nacional.
- O cronograma tem por base o Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 4, publicado em 30 de julho de 2026.
Então faça esse cruzamento. Abra a lista de clientes e escreva na frente de cada um qual documento fiscal ele emite. Quem emite NF-e e NFC-e já está dentro da fase 1 desde 3 de agosto, e para esses a pergunta não é mais "quando", é "está saindo certo". Quem presta serviço na regra geral do ISS e quem emite NFCom, que é o pessoal de comunicação, entra em 1º de outubro, e são 40 dias. A fase 3, de 1º de dezembro, é a que mais gente vai subestimar, porque ela pega plataforma digital, tecnologia, bens imateriais, taxa condominial e locação, e boa parte dessas operações está hoje em cliente que nem se enxerga como "empresa de nota fiscal complicada". E a fase 4, de 1º de janeiro de 2027, junta o Simples Nacional com os monofásicos e a Duimp no mesmo dia em que a cobrança efetiva começa.
Repare na inteligência do desenho: as fases foram ordenadas do documento mais padronizado para o menos padronizado. NF-e primeiro, porque é nacional e madura. NFS-e depois, em duas levas, porque ela envolve realidade municipal e serviços de natureza bem diferente entre si. E o Simples por último, junto com a virada. Quem entende essa lógica consegue prever onde vai doer, e o lugar onde vai doer é a fase 3, na NFS-e das operações menos convencionais.
Detalhe importante de método, e eu insisto nele: a fonte primária aqui é o Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 4, de 30 de julho de 2026. A publicação de Rondônia organiza e divulga o calendário, o que ajuda muito, mas na hora de fundamentar uma orientação por escrito ao cliente, cite o ato conjunto.
🚨 Deadline: 1º de outubro de 2026, a 40 dias, começa a fase 2 do cronograma dos documentos fiscais, e entram a NFS-e de serviços gerais, a NFCom e a DIR
Pelo cronograma baseado no Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 4, publicado em 30 de julho de 2026, a segunda fase de implementação dos campos de IBS e CBS nos documentos fiscais eletrônicos alcança a NFS-e de serviços gerais, a NFCom modelo 62 e a DIR. reformatributaria.sefin.ro.gov.br, 18/08/2026
Coloquei essa data na caixa vermelha porque ela é a que alcança mais gente na carteira média de um escritório e a que menos apareceu nas conversas até agora. Prestador de serviço na regra geral do ISS é o cliente mais comum que existe, e ele passou os últimos dois meses ouvindo falar de NF-e, de campo novo e de alíquota teste achando que aquilo era assunto de indústria e comércio. Não era, era a fila. Em 1º de outubro chega a vez dele. Quarenta dias parecem muitos, mas metade disso vai embora esperando o fornecedor de software confirmar a data de atualização, e a outra metade some entre testar, achar erro de cadastro de serviço e corrigir. Se você atende prestador de serviço, a conversa com o fornecedor de sistema é desta semana, não de setembro.
💡 Hook do dia
Os três itens de hoje, lidos juntos, formam uma imagem bem clara. De um lado, a máquina pública andando: programa em homologação, cronograma publicado em quatro fases, data definida para cada tipo de documento. Do outro lado, a empresa: 1% com tecnologia pronta, 37% sem contrato revisado, 34% sem saber o efeito no próprio preço.
Essas duas velocidades não vão se encontrar sozinhas. Alguém precisa estar no meio traduzindo uma para a outra, e esse alguém é o profissional que lê ato conjunto, entende o que é homologação de sistema e sabe transformar uma lista de datas em plano de trabalho por cliente. Não é o empresário que vai fazer isso. Ele nem sabe que existe uma fase 2.
Eu acho que esse é o ponto que mais se perde no meio de tanta notícia técnica, então deixo ele explícito para o fim de semana de vocês: a distância entre o que a administração tributária já organizou e o que a empresa média entendeu é grande, e ela é exatamente o tamanho do espaço profissional de quem estuda isso agora. Não daqui a dois anos, agora, com contrato em cima da mesa e prazo no calendário. Tá?
📅 Próximas águas a observar
- 25 de agosto de 2026, terça-feira: 14º módulo do curso Reforma Tributária do Consumo, da Receita Federal com o Conselho Federal de Contabilidade, com foco em agronegócio e cooperativismo agrícola, presencial em Cascavel, no Paraná. Faltam 3 dias.
- 1º de setembro de 2026: abre a janela de opção do Simples Nacional sobre a forma de recolhimento de IBS e CBS, que vai até 30 de setembro. Faltam 10 dias.
- 22 de setembro de 2026: último módulo da série de 18 do curso da Receita Federal com o CFC. Faltam 31 dias.
- 27 de setembro de 2026: entrada em produção das novas regras de IBS e CBS na DUIMP, no Portal Único Siscomex. Faltam 36 dias.
- 30 de setembro de 2026: encerra a janela de opção do Simples Nacional. Faltam 39 dias.
- 1º de outubro de 2026: fase 2 do cronograma dos documentos fiscais eletrônicos, com NFS-e de serviços gerais, NFCom e DIR. Faltam 40 dias.
- 30 de novembro de 2026: prazo atual para desistência da opção por IBS e CBS fora do Simples. Faltam 100 dias.
- 1º de dezembro de 2026: fase 3 do cronograma, com NFS-e de plataformas digitais, tecnologia, transporte urbano, bens imateriais, taxas condominiais e locações, além de NFGas, NFAg e NF-e ABI. Faltam 101 dias.
- 1º de janeiro de 2027: fase 4 do cronograma, com fornecimentos monofásicos, Duimp, demais eventos do DeRE e Simples Nacional, no mesmo dia em que começa a cobrança efetiva de IBS e CBS. Faltam 132 dias.
📌 Para acompanhar e se aprofundar
- Acompanhe o Termômetro todo dia no blog: blog.professorfellipeguerra.com.br/blog
- O 14º módulo do curso Reforma Tributária do Consumo, da Receita Federal com o Conselho Federal de Contabilidade, acontece em 25 de agosto, com foco em agronegócio e cooperativismo agrícola, presencial em Cascavel, no Paraná, e as inscrições são feitas pelo Sistema de Inscrições do CFC.
- As inscrições do curso Dominando a Reforma Tributária estão abertas: professorfellipeguerra.com.br/reforma-tributaria-v2
Se hoje der para fazer só uma coisa, faça a do terceiro item, porque ela cabe num café de sábado e organiza o resto do ano. Pegue a lista de clientes, escreva na frente de cada nome qual documento fiscal ele emite, e marque em qual das quatro fases ele cai. Quando você terminar, vai ter na mão uma coisa que quase nenhum escritório tem hoje, que é a ordem exata em que os seus clientes vão precisar de você.
Bom sábado a todos, bom descanso, e fiquem com Deus.
Comente. Sua leitura conta.
Discorde, complemente, sugira uma notícia que faltou.
Mande sua leitura por Instagram ou e-mail.